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A PF colocou o presidente da Câmara e um cacique do Centrão dentro da fatura do dono do Master, o relator caminhoneiro enfiou a anistia dos bloqueios de 2022 em uma MP do frete, o Senado ratificou dois acordos de livre comércio no mesmo dia e uma audiência mostrou o consumidor honesto bancando R$ 7 bilhões por ano de gato e fraude na conta de luz.

A Polícia Federal apontou em relatório enviado ao STF que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro custeou cinco diárias em um hotel cinco estrelas de Lisboa para o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o senador Ciro Nogueira. O documento faz parte da Operação Compliance Zero, foi entregue ao ministro André Mendonça e tem origem em mensagens achadas nos celulares do banqueiro. Segundo a PF, em junho de 2024, Vorcaro pediu a um operador a reserva de duas suítes no Four Seasons Ritz Lisbon e mandou uma lista de nomes que incluía Ciro Nogueira, Hugo Motta, o deputado Luizinho e o fundador da Oncoclínicas. A invoice localizada soma 3.155 euros em cinco diárias, com cerca de R$ 91 mil atribuídos à hospedagem ligada a Ciro. No mesmo dia, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, veio a público rebater uma reportagem da Veja que o relacionava ao recebimento de US$ 30 milhões do banqueiro em conta no exterior. É preciso ser exato no enquadramento. Ciro Nogueira é investigado e já foi alvo de busca e apreensão autorizada pelo Supremo, não é réu nem condenado. Hugo Motta não está na lista de investigados, afirma estar tranquilo e diz não ver irregularidade em um encontro que classificou como corporativo e jurídico. Vorcaro segue preso com processo em andamento, e isso não o transforma em ladrão por decreto editorial. Feita a ressalva, o que a investigação descreve é grave por outro motivo. O caso Master, acompanhado por esta newsletter desde a estreia, deixou de ser uma história de banqueiro e operadores e chegou às cadeiras que comandam as duas Casas do Congresso. E o nome no centro disso é o Centrão, a engrenagem que escapa da briga diária entre petismo e bolsonarismo e quase nunca vai para a manchete. Banqueiro investigado reservando suíte de dezoito mil reais a diária para quem decide a pauta do país não é detalhe de viagem. O que se cobra é transparência total e a saída do parlamentar que aparece na fatura de qualquer apuração que o envolva, porque Congresso que se investiga de olhos fechados não fiscaliza ninguém. (Correio Braziliense, Metrópoles)

A Câmara aprovou a MP do piso do frete e, no meio do texto, enfiou a anistia às multas dos caminhoneiros que bloquearam estradas depois da eleição de 2022. A Medida Provisória 1343/26 foi enviada pelo governo Lula para reforçar o cumprimento do piso mínimo do transporte rodoviário de cargas, com punição para contrato abaixo do valor legal e registro obrigatório de cada operação pelo Ciot. Até aí é pauta corporativa do Executivo, daquelas que rendem voto de categoria em ano eleitoral. O problema veio no substitutivo da comissão mista. O relator, deputado Zé Trovão, caminhoneiro de profissão e uma das lideranças das mobilizações bolsonaristas do setor, incluiu a anistia às multas judiciais, administrativas e civis aplicadas a quem participou dos bloqueios e atos que travaram as estradas após o segundo turno de 2022, alcançando inclusive valores já inscritos em dívida ativa. O próprio relator chegou a ter prisão decretada pelo STF por suspeita de organizar manifestações violentas naquele período. Esse tipo de enxerto tem nome no jargão do Congresso, jabuti, que é o trecho sem relação com o tema central empurrado para dentro de um projeto. Os bloqueios do fim de 2022 não foram pauta trabalhista, foram tentativa de não aceitar o resultado da urna, e perdoar a conta dessa aventura escondida em uma MP de frete é reescrever a história pela porta dos fundos. A posição vale para os dois lados da mesa. O governo não deveria deixar a própria medida virar carona para anistia política, e quem defende o perdão que o apresente de cara, com nome e voto aberto, e não disfarçado de defesa do caminhoneiro autônomo. O texto agora vai ao Senado, e dá para separar o joio do trigo, votar o piso do frete pelo mérito e barrar o jabuti pelo que ele é. (Câmara dos Deputados, Reuters)

O Senado ratificou no mesmo dia os acordos de livre comércio do Mercosul com Singapura e com o bloco europeu da EFTA, abrindo mercados de alta renda na Ásia e na Europa. Pelo acordo com Singapura, o país asiático zera de imediato as tarifas sobre tudo o que o Mercosul exporta, e o bloco elimina em até quinze anos as tarifas sobre a quase totalidade dos produtos de Singapura, com agronegócio e comércio eletrônico entre os mais beneficiados. É o primeiro tratado do tipo do Mercosul com o Sudeste Asiático. Pelo acordo com a EFTA, que reúne Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça, mais de 97% das exportações brasileiras ganham acesso preferencial, com quotas para carne bovina, aves, milho e mel, e os europeus zeram as tarifas industriais e pesqueiras. Aqui o canal aplaude sem constrangimento. Abrir o Brasil para economias dinâmicas e de renda alta, diversificar parceiros e tirar o exportador da dependência de sempre é exatamente o caminho de um país que quer crescer em vez de só repartir o que já tem. E vale registrar de onde veio o empurrão, porque crédito é crédito. O governo conduziu a negociação, um arco amplo de senadores aprovou, o relator Nelsinho Trad destacou o papel de Tereza Cristina nas tratativas e, na Câmara, quem relatou o acordo com Singapura foi o deputado Kim Kataguiri, com o argumento direto de usar o país como plataforma para a Ásia e reduzir a dependência dos parceiros tradicionais. O contraste com a notícia da MP do frete escreve sozinho. O mesmo Congresso que contrabandeia anistia de bloqueio dentro de um projeto consegue, quando quer, ratificar acordo que aumenta o bolo em vez de brigar pela divisão dele. Que venha mais disso e menos protecionismo de palanque. (Senado Federal, Poder360)

Uma audiência na Câmara mostrou que o consumidor que paga a conta em dia bancou mais de R$ 7 bilhões por ano, em 2024 e 2025, pelo gato e pela fraude no setor elétrico. Os números foram apresentados nesta quarta pela Aneel e pelas distribuidoras. A Abradee contabilizou R$ 11,3 bilhões de prejuízo com as chamadas perdas não técnicas em 2025, dos quais R$ 7,8 bilhões foram repassados às tarifas. A Aneel informou que em 2024 essas perdas chegaram a 40 TWh, o equivalente a 6,6% de toda a energia injetada no país, com custo de R$ 10,3 bilhões dividido entre consumidores, distribuidoras e poder público. O auditor do TCU que acompanha o setor chamou isso de imposto invisível, e a expressão é precisa. O furto de energia, a ligação clandestina, o medidor adulterado, tudo isso encolhe a base que paga e empurra a tarifa de quem está em dia para cima. O detalhe que liga essa conta de luz à segurança pública é o que mais incomoda. Parte relevante das perdas se concentra em áreas onde, segundo a própria reguladora, a distribuidora não entra por causa da violência e do domínio do crime organizado. Ou seja, em muitos lugares, o gato não é o vizinho esperto, é a milícia e a facção controlando o poste onde o Estado já abandonou o território. Quando isso acontece, a fatura mais cara não paga só energia, paga também a ausência do poder público. A saída não é repassar a perda por planilha e benchmarking entre distribuidoras, é combater o furto a sério e retomar o território perdido, porque sem segurança pública de verdade nenhuma tarifa fecha a conta. (Câmara dos Deputados, com dados da Aneel e da Abradee)

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