Quarenta e dois votos contra. Trinta e quatro a favor. Uma abstenção. Em votação secreta no plenário do Senado, na noite desta quarta, 29 de abril, a indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal foi rejeitada. Foi a primeira derrota desse tipo desde 1894. Faz sentar e pensar.
Cento e trinta e dois anos. Cinco rejeições anteriores, todas concentradas num único ano da Primeira República, no governo do marechal Floriano Peixoto. Nenhuma derrota assim depois da Constituição de 1988. Nenhum presidente, em 37 anos de redemocratização, viu seu indicado ao STF ser barrado pelo Senado. Até ontem.
O PLACAR HISTÓRICO
42 × 34
Messias precisava de 41 votos. Conseguiu 34. Estavam presentes 79 dos 81 senadores. A votação foi secreta, o que tornou a derrota ainda mais difícil de prever para o governo.
Cinco meses de articulação que falharam em uma noite
A história começa em outubro de 2025, quando Luís Roberto Barroso antecipou sua aposentadoria e abriu vaga na Corte. Em 20 de novembro, Lula anunciou Messias. O nome contrariou Davi Alcolumbre, presidente do Senado, que vinha articulando a indicação de Rodrigo Pacheco. O Planalto não consultou. Alcolumbre soube pela imprensa.
A partir dali, foi guerra fria. A mensagem oficial da indicação, que costuma chegar em dias, demorou cinco meses para sair do Palácio do Planalto. Messias visitou pessoalmente quase todos os senadores. O governo negociou cargos em agências reguladoras, distribuiu acenos, segurou pautas. A base falava em 45 votos garantidos. A oposição admitia ter 30 votos contrários. A conta não fechava nem para um lado nem para o outro.
A sabatina na Comissão de Constituição e Justiça durou oito horas. Messias se apresentou como evangélico, contrário ao aborto, defensor da separação de poderes, crítico ao "ativismo judicial". Saiu aprovado por 16 a 11. Margem apertada, mas margem. O líder do governo, Jaques Wagner, foi pessoalmente conversar com Lula no Palácio da Alvorada antes do plenário. Voltou otimista, falando em 44 a 46 votos.
Cinco horas depois, no plenário, o jogo virou. A oposição comemorou efusivamente. Senadores governistas saíram do plenário em silêncio. Em entrevista coletiva, visivelmente emocionado, Messias afirmou: "Sabemos quem promoveu tudo isso." Sem nomear ninguém.
Não é vitória do bolsonarismo. É sintoma de algo bem maior.
Aqui é onde a conversa precisa ficar honesta.
A leitura fácil, que vai dominar boa parte da imprensa de oposição nesta quinta-feira, é que o resultado representa uma "vitória da oposição". Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência em outubro, falou em "fim do governo Lula". Jorge Seif, do PL, foi mais longe e disse que o resultado prova que existe "voto para impichar" ministros do Supremo na próxima legislatura.
Não é exatamente mentira. Mas é meia verdade que serve a um lado.
A derrota de Messias não nasceu do bolsonarismo. Nasceu de algo mais profundo, que vem se acumulando: o esgotamento do modelo de relação que o Palácio do Planalto construiu com o Congresso. Lula tratou o Senado como balcão, ignorou o presidente da Casa, demorou cinco meses para enviar a mensagem oficial de uma indicação que ele mesmo anunciou em novembro, achou que articulação política se faz com cargo em autarquia. E levou no plenário a fatura completa.
Lula tratou o Senado como balcão. Ignorou Alcolumbre. Achou que cargo em agência reguladora compra voto secreto. Pagou a conta inteira numa noite.
Quem se beneficia disso? Em primeiro lugar, a oposição, que volta a ter agenda própria depois de meses paralisada. Em segundo, o próprio Alcolumbre, que prova ter força para impor derrota a um governo que o desrespeitou. Em terceiro, e este é o ponto que ninguém quer dizer em voz alta, o STF perde mais uma camada de blindagem institucional. A votação não foi só sobre Messias. Foi também sobre o tribunal que ele representaria. A Corte vive sua maior crise de credibilidade desde a redemocratização, e o Senado, ao votar secretamente contra um indicado do governo aliado, deu seu recado.
O problema é o que vem depois.
Quem aplaude hoje vai indicar diferente amanhã?
A engrenagem é a mesma. Só muda quem manda.
Quem comemora hoje porque "deu Lula" pode amanhã estar comemorando porque "deu STF", e depois "deu Câmara", e depois "deu Executivo". Esse tipo de raciocínio começa em "vamos restabelecer a separação dos poderes" e termina em revanchismo institucional. Senadores que falam em impeachment automático em 2027 não estão defendendo a Constituição. Estão dizendo que querem usar as mesmas ferramentas que criticam, na primeira oportunidade.
Se a oposição que hoje aplaude a derrota do Planalto chegar ao poder em 2027, vai mudar de comportamento ou vai apenas trocar os nomes na lista de cargos? Vai indicar ministros pelo critério técnico ou pelo critério de fidelidade política? Vai dialogar com o Congresso ou vai querer aprovar tudo a toque de caixa?
A história brasileira já respondeu a essa pergunta várias vezes. André Mendonça, indicado por Bolsonaro em 2021, ficou cinco meses esperando sabatina. O governo daquela época também usou cargos como moeda. A pressão religiosa foi exatamente a mesma. O modelo é idêntico. Muda o partido, não muda a lógica.
É por isso que a derrota de ontem não pode ser celebrada como se fosse a chegada de uma nova era. É só o velho sistema funcionando em outra direção. O brasileiro comum, o jovem que vai votar pela primeira vez em 2026, o trabalhador que paga imposto e não tem médico no posto de saúde, esse continua sendo a peça que sempre perde, independentemente de quem comemora no plenário.
O dia 29 de abril não é sobre o Lula. É sobre o sistema.
O recado real desta quarta-feira não é "Lula caiu" nem "a oposição venceu". O recado é que o sistema de indicações ao STF, do jeito que está, é insustentável. Um país sério não tem ministros do Supremo escolhidos como prêmio de gabinete, sabatinados com aceno religioso, aprovados ou rejeitados por troca de cargos em autarquia.
O que o Brasil precisa é discussão séria sobre critério técnico para indicações, mandato fixo de ministros, lista tríplice, qualquer coisa que tire a Corte da lógica do balcão político. Precisa de um governo que dialogue de verdade com o Congresso, não que mande mensagem cinco meses depois e se surpreenda com o resultado. Precisa de um Senado que continue agindo como Senado, e não como bancada de oposição automática contra qualquer governo de plantão.
E o que precisa de menos, urgentemente, é dessa narrativa preguiçosa que reduz tudo a "venceu o nosso lado". Porque, enquanto o jogo for esse, o brasileiro comum continua sendo a única peça que sempre perde.
Lula vai ter que enviar um novo nome ao Senado. Alcolumbre já avisou que prefere esperar o resultado das eleições de outubro para pautar a próxima indicação. A vaga deixada por Barroso pode passar meses em aberto. O STF segue funcionando com dez ministros e uma cadeira vazia, num país onde a próxima eleição vai redesenhar o Congresso e, possivelmente, a relação entre os três poderes nos próximos quatro anos.
O placar de ontem entrou para a história. O que vai entrar para a história depois dele depende de escolhas que ainda não foram feitas. Por nenhum dos lados.
E você, o que acha?
A derrota de Messias é mais sobre o sistema do que sobre o nome? Ou foi só vitória partidária da oposição? Comente aqui embaixo. Se quer receber análises como essa toda semana direto no e-mail, assine a nossa newsletter.

