Em São Paulo, na quarta-feira passada, alguém ligou um projetor numa sala vazia da Cinemark para exibir Zuzubalândia. Não foi engano. Foi negócio. A rede programou 114 sessões do filme só naquele dia, quase metade delas às 11h da manhã, o resto espremido entre o almoço e duas e meia da tarde. Em 2026, a animação infantil acumulou 17.237 sessões em todo o país e foi assistida por exatas 1.882 pessoas. A conta dá 0,1 espectador por sessão. Em algumas unidades, o cinema abre antes do horário comercial, projeta o filme em quatro telas simultâneas para plateias inexistentes e fecha as portas até a tarde, quando a venda real de ingressos começa.
A Folha de S.Paulo encontrou tudo isso. A Cinemark, oficialmente, diz que não comenta a cota de tela e que as sessões fazem parte do tal Projeto Escola. Funcionários da própria rede contaram outra história ao jornal. A orientação interna é simples. Despeja Zuzubalândia logo cedo, bate a meta da cota antes do almoço, e o resto do dia fica liberado para os blockbusters americanos que de fato vendem ingresso. A Ancine, agência reguladora do setor, avalia se admite no cumprimento da cota um filme que tem dez minutos a menos do que o necessário para ser considerado um longa. Avaliar é o verbo errado.

Foto oficial de divulgação de Zuzubalândia. O filme escolhido pela Cinemark não foi por coincidência: Zuzubalândia (2024) tem apenas 60 minutos de duração, o que permite que ele seja exibido mais vezes no mesmo espaço de tempo do que filmes mais longos.
Como uma boa intenção virou estatística
A cota de tela é a lei que obriga as redes brasileiras a reservarem uma fatia da programação anual para filmes nacionais. A regra foi reformada em 2024, prorrogada até 2033 pela Lei 14.815, e em dezembro de 2025 ganhou novo regulamento para 2026. No caso da Cinemark, a obrigação é de 16% das sessões anuais. A justificativa que sempre se ouve é nobre. Cinema brasileiro precisa de espaço. Hollywood domina as telas. Sem reserva legal, a produção nacional desaparece. Tudo isso tem alguma verdade na origem, e ninguém aqui está dizendo que cinema brasileiro é o problema. O problema é outro, e os números de 2025 dizem tudo o que precisa ser dito.
No ano passado, o governo federal desembolsou R$ 1,41 bilhão em recursos públicos para o audiovisual, o maior volume da série histórica, segundo a própria Ancine. Foram 203 filmes brasileiros lançados. Sete deles concentraram 73% de todo o público. Mais da metade do total, 111 filmes, não chegou a vender mil ingressos. O dado bruto do portal Filme B é cruel. 85% dos filmes nacionais lançados não passam de 10 mil pagantes. Mesmo assim, três filmes deram conta. Ainda Estou Aqui levou 5,1 milhões aos cinemas. O Auto da Compadecida 2 fez 4 milhões. O Agente Secreto passou de um milhão. Esses três sozinhos seguraram o ano e mascararam o resto.
Traduzindo. No mesmo ano em que o cinema brasileiro teve seu maior orçamento público da história, a maioria absoluta dos filmes nacionais não vendeu mil ingressos. A cota de tela, que existe para empurrar essa produção para o público, garantiu sessões vazias. Não desinteresse de público em determinada cidade, em determinado horário. Sessões vazias. 0,1 espectador por exibição. Isso não é problema de espaço nas salas. É problema de produto.
A pergunta que ninguém quer fazer
Há uma analogia do canal Ei Nerd, um dos principais canais de cultura pop do Brasil, que serve muito bem. Imagine o governo obrigando padaria a vender chá em 16% das mesas no horário de café da manhã. O dono não vai contratar barista, não vai melhorar a receita, não vai ensinar o cliente a gostar. Ele vai abrir uma garrafa térmica às seis da manhã, deixar o chá sentado e dizer que cumpriu a lei. É exatamente isso que a Cinemark fez. A diferença é que ali é uma empresa privada de capital americano, com custo de aluguel, energia, funcionário e equipamento. Cinema é negócio, não obra social, e empresa que não vende ingresso não sobrevive para projetar nada na sessão seguinte.
A pergunta incômoda é se a cota funciona. Como dispositivo para garantir que o filme nacional seja exibido, ela funciona, sim, na medida em que a Cinemark e as outras redes estão exibindo. Como dispositivo para criar público para o cinema brasileiro, que era o propósito declarado, a resposta de 2025 chegou. Não funciona. Cidade de Deus não precisou de cota. Tropa de Elite não precisou de cota. O Auto da Compadecida não precisou de cota. Central do Brasil não precisou de cota. Minha Mãe É Uma Peça não precisou de cota. Ainda Estou Aqui estreou em 765 salas no primeiro dia, e isso foi resultado do produto, do marketing e do boca a boca, não de uma planilha da Ancine.
O brasileiro paga em média perto de cem reais para levar a família ao cinema, contando estacionamento e pipoca. Quando ele decide gastar isso, ele sabe muito bem o que quer ver. Forçar a programação de algo que ele não quer ver é, na melhor das hipóteses, um exercício de teatro. Na pior, uma forma de tirar sala de exibição de filmes que poderiam estar ali, sustentando um parque exibidor que ainda tem 36% menos gente do que em 2019, segundo a ABRAPLEX.
O que sobra quando se admite o óbvio
A cota de tela existe porque a tese política por trás dela diz que sem proteção o cinema brasileiro morre. Em 2025, sob a regra mais protetiva da história e com o maior orçamento público de todos os tempos, três filmes seguraram o cinema nacional inteiro. Os outros 200 nasceram subsidiados, foram exibidos por imposição legal e morreram com menos de mil pagantes. Esse é o atestado de óbito da tese.
Cinema brasileiro de qualidade não precisa de cota. Filme bom encontra sala, encontra público, encontra premiação. Quem defende a cota nesses termos está, na prática, defendendo a sobrevivência burocrática de uma estrutura que distribui dinheiro público para 200 filmes por ano que ninguém vai ver, e exige que a rede privada finja exibi-los para ninguém. O caso Cinemark não foi o desvio. Foi a regra do jogo se mostrando inteira.
A solução existe, e ela não é radical. Concentrar dinheiro público em poucos projetos com chance real de mercado, exigir contrapartida de bilheteria como tem em qualquer país sério, desmontar a obrigatoriedade que premia o filme que não anda em vez de premiar o filme que vende. Coreia do Sul tem proteção robusta ao audiovisual e produz Parasita. França tem proteção robusta e produz cinema que vai a Cannes e enche sala. O Brasil tem proteção robusta e produz Zuzubalândia tocando para zero pessoa às onze da manhã num cinema fechado.
Enquanto a discussão for sobre como obrigar a Cinemark a exibir melhor o que o público não quer ver, ela vai continuar perdendo o ponto. A pergunta certa não é como punir a rede que achou o atalho. É porque o atalho existe.
Você concorda? Comenta aqui o que acha da cota de tela. Cinema brasileiro precisa de obrigação para sobreviver, ou precisa de filme que o brasileiro queira assistir?
