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Renan Santos foi convidado do podcast Os Sócios, de Bruno e Malu Perini, na quinta-feira 14 de maio de 2026, em uma conversa de cerca de duas horas que bateu o recorde de audiência ao vivo do programa, com 22 mil espectadores simultâneos. A conversa aconteceu 24 horas depois do áudio do Intercept que mostrou Flávio Bolsonaro cobrando R$ 134 milhões do dono do Banco Master, e essa coincidência de calendário organizou o conteúdo. Enquanto a corrida pela direita ardia em mais um escândalo de família, o pré-candidato do Missão ocupou duas horas com diagnóstico do sistema político e plano de governo. O contraste editorial é o que interessa ao canal.

O podcast Os Sócios tem perfil específico. Bruno Perini é figura conhecida do mercado financeiro brasileiro, com base de seguidores que se interessa por economia, investimentos e gestão pública. Não é o terreno natural da militância política nem o palco de propaganda de palanque. É um espaço de classe média urbana produtiva, de pessoas que pagam imposto, que abrem negócio e que assistem à fatura da política em cima do próprio bolso. Renan Santos foi até esse público com vocabulário direto e sem afetação acadêmica, e a régua editorial deste canal manda registrar o que apareceu na conversa.

O diagnóstico que falta em 2026

O bloco mais consistente da entrevista é o do diagnóstico. Renan recusou o atalho fácil que toda a polarização adotou, o de tratar o STF como o problema central do país, e empurrou a câmera para um andar abaixo. A tese é a seguinte. O verdadeiro sistema político brasileiro começa em prefeituras de cidades de 2 mil habitantes cujo orçamento vem em 97% de repasses da União, sobe pelos deputados do Centrão que vendem voto em Brasília, e chega ao topo nas indicações para TCU, tribunais de contas estaduais e Supremo. O STF com superpoderes não nasceu por geração espontânea. Foi o resultado de um acordo descrito no áudio de Romero Jucá em 2016, e segue funcionando porque é útil ao mesmo sistema que o criou.

A imagem mais forte da conversa é uma analogia que vale a citação. Numa União Europeia administrada por gregos, portugueses e irlandeses, em vez de alemães e franceses, a coisa não funcionaria. O Brasil opera exatamente assim. São Paulo, Minas e Paraná são governados, na prática, pelo presidente do Senado do Amapá e pelo presidente do PP do Piauí. Renan listou o top cinco do poder real no Brasil hoje, e tirando Lula, todos os nomes eram do Centrão. Davi Alcolumbre, Ciro Nogueira, Cassab, Antonio Rueda. Não há projeto de país em nenhum deles. Há o jogo de garantir que o caixa siga rodando.

A novidade analítica é a régua. Não há, na conversa, a fantasia bolsonarista de tratar o Centrão como aliado temporário a ser engolido em nome de uma agenda maior. Há diagnóstico de que esse é o problema central. E é nesse ponto que a posição do canal se encontra com a do pré-candidato. Quem se diz "nova direita" no Brasil e governa de mãos dadas com Alcolumbre e Ciro Nogueira não é nova direita, é a velha política com camiseta diferente.

A crítica simétrica que o canal vinha esperando

A entrevista entregou também o que esta página vem registrando desde a edição de estreia. Renan foi direto sobre Flávio Bolsonaro, apontou o senador como o nome da família com a maior carga de problemas pendurados, e descartou em público a tese de "voto útil na direita" que o bolsonarismo vende para o eleitor desiludido. A leitura coincide com o que o áudio do Intercept escancarou 24 horas antes. O pré-candidato com fundo partidário e máquina pronta está tropeçando em escândalo próprio, e o que sobra de oposição é o repeteco da família que já ocupou o Planalto.

A mesma régua atinge Lula. Renan tratou o atual presidente da República como uma constante a ser derrotada nas urnas, sem demonização emocional e sem o vocabulário de mártir que o bolsonarismo emprestou da esquerda nos últimos anos. Para o canal, é exatamente esse tom que falta no debate público. Bater no Lula sem precisar inventar tirania para justificar o golpe, e bater no Flávio sem dar desconto por afinidade partidária.

O plano dos 365 dias

Ao fim do podcast, Bruno Perini fez a pergunta que o canal queria ver respondida. O que o pré-candidato faria no primeiro ano de governo, se eleito. A resposta veio em três blocos. Primeiro, uma PEC de reforma fiscal pesada protocolada ainda na janela de transição, com a ideia de atacar a curva da relação dívida sobre PIB e abrir espaço para queda de juros. Segundo, uma operação concentrada de retomada do território brasileiro nas mãos do crime organizado, usando o instrumento de estado de defesa previsto na Constituição para regiões específicas dominadas por facção, com troca de legislação penal em paralelo. Terceiro, e o que Renan classificou como o legado de mais longo alcance, uma lei de responsabilidade gerencial inspirada em experiências de Singapura, Japão e China.

A lei de responsabilidade gerencial é a proposta mais original do livro amarelo do Missão, e merece anotação. A ideia é simples. Hoje, um prefeito brasileiro não precisa cumprir indicador objetivo nenhum para se reeleger, e milhares de municípios sobrevivem apenas dos repasses do fundo de participação, sem economia local que os sustente. A proposta condiciona o repasse ao desempenho em KPIs obrigatórios (educação, saneamento, redução de assistencialismo, atividade econômica formal) e prevê comissariado técnico para administrar municípios que descumprirem. Quem repetir o desempenho ruim por quatro anos fica inelegível por oito. O ponto político da proposta é claro. Sem essa engenharia, o Ciro Nogueira do Piauí continua mandando em São Paulo até a próxima geração, porque o eleitor que ele compra com voto não exige indicador nenhum em troca.

Onde o canal mantém régua

Não é função desta análise fazer babação. O canal não endossa em bloco toda a entrevista. Renan defendeu, conceitualmente, a pena de morte para crimes específicos, registrou que isso depende de mudança de cláusula pétrea da Constituição, e tratou o assunto como debate de uma constituinte futura. A posição é dura e merece debate público amplo, não adesão por reflexo ideológico. A pauta da reabertura de hospitais psiquiátricos para internação de pessoas com transtornos graves é defensável em diagnóstico (boa parte da população em situação de rua de fato precisaria de tratamento), mas o histórico brasileiro de uso político e abusivo desses espaços recomenda salvaguardas que a entrevista não detalhou. A leitura dele sobre o voto da mulher jovem urbana, classificada como "perdida" para a direita, é um diagnóstico empírico até razoável, mas é também uma desistência estratégica que custa caro em 2026.

Sobre Bitcoin, Renan acenou com a ideia de reserva fracionária estatal, alíquota baixa para transação e marco regulatório amigável. Disse não ter posição fechada sobre adotar como moeda oficial à moda Bukele. Foi a resposta mais honesta possível para um candidato que ainda está construindo plataforma, e é melhor do que a alternativa, que seria empurrar promessa sem ter discutido com o time.

Por que o registro importa em 2026

A última pesquisa AtlasIntel coloca Renan Santos em 1,5% das intenções de voto no agregado nacional, e em 18,6% na Geração Z, à frente de Flávio Bolsonaro nesse recorte. A pesquisa Bites de abril mostrou que o pré-candidato é o que mais cresce em redes sociais entre os concorrentes. A conversa no Sócios foi uma ponte de duas horas para um público que não é o mesmo das redes onde Renan já é forte, e a aposta de Bruno Perini em chamá-lo foi premiada com 22 mil espectadores ao vivo. O recado é simples para quem acompanha a eleição.

Quem disputa a Presidência em 2026 vai precisar entregar mais do que palanque. Vai precisar de diagnóstico, plano e capacidade de explicar política para gente que paga IPTU, abre CNPJ e contrata funcionário. Lula tem partido, máquina e dificuldade óbvia para apresentar agenda nova depois de três mandatos. Flávio tem sobrenome, dinheiro de Vorcaro pingando em vídeo e dificuldade óbvia de explicar o áudio do Intercept. O resto do tabuleiro, do Tarcísio que recua à medida que precisa virar candidato, do Caiado que tem palanque sem partido, do Zema que faz campanha bolsonarista por receio de perder eleitor, está atrasado no debate substantivo.

O Sócios mostrou o que o terceiro nome do tabuleiro tem para oferecer fora do recorte digital onde já cresce. O canal anota e mantém a régua. Diagnóstico não é mandato, plano não é voto, e a curva da rede social só vira urna se houver entrega. Mas o material existe, está documentado em vídeo e merece ser visto.

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