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Tem um vídeo circulando nas redes que resume tudo o que está errado com a política brasileira. Manoel Gomes, o cantor maranhense famoso pela música "Caneta Azul", se declarou pré-candidato a deputado federal por São Paulo. E quando alguém resolve simplesmente perguntar o que ele pretende fazer se eleito, o que se vê é uma das cenas mais reveladoras sobre a falência do nosso sistema político.

A resposta? Nenhuma. Literalmente nenhuma.

Não há uma proposta vaga. Não há um esboço de ideia. Nada. "Não posso falar ainda." "Tá tudo em off." "A hora ainda não chegou." Quando perguntado o que é corrupção, o homem que quer ser representante do povo no Congresso Nacional respondeu que é "fazer coisa errada". Quando questionado sobre o que é um deputado federal, disse que não sabe porque "ainda não está lá dentro". Quando a escala 6x1 entrou na conversa, pediu para alguém explicar o que era.

Isso não é humildade intelectual. Isso é ausência total de qualificação para o cargo. E ao contrário do que muita gente confortavelmente diz para suavizar a análise, o problema começa no próprio Manoel, não só no sistema ao redor dele.

O problema começa na consciência de quem se candidata

Ser deputado federal não é prêmio. Não é upgrade de vida. Não é forma de sair do anonimato ou de garantir apartamento funcional em Brasília e salário de R$ 46 mil por mês às custas do contribuinte.

É um cargo de representação. Significa que 215 milhões de pessoas entregam a você, por quatro anos, o poder de votar em leis que afetam a vida delas. Saúde, educação, segurança, orçamento público, direitos trabalhistas. Tudo isso passa pelas mãos de quem ocupa uma cadeira na Câmara dos Deputados.

Para assumir essa responsabilidade, existe uma exigência mínima que não depende de partido, de sistema ou de lei. Depende de consciência pessoal. A pergunta que qualquer pessoa honesta precisa fazer antes de se candidatar é simples: eu tenho condição de exercer isso?

Manoel Gomes não fez essa pergunta. Ou fez e ignorou a resposta. Porque qualquer resposta honesta que ele desse a si mesmo levaria à conclusão de que ele não está preparado para o cargo. Não é uma questão de escolaridade. É uma questão de autoconhecimento básico e de respeito por quem vai ser representado.

Uma pessoa que não sabe o que faz um deputado federal não pode querer ser deputado federal. Uma pessoa que não consegue citar uma única pauta, um único problema concreto que pretende enfrentar, não pode pedir o voto de ninguém. Uma pessoa que responde "não posso falar ainda" quando questionada sobre suas propostas não está sendo estratégica. Está expondo, ao vivo, que não tem o que falar porque não tem o que pensar sobre o assunto.

Isso tem nome: falta de consciência cívica. E não existe desculpa para ela.

O filtro que não existe

Para trabalhar como operador de caixa num supermercado, você passa por uma entrevista. Para ser motorista de aplicativo, você precisa ter habilitação e histórico limpo. Para ser servidor público, você estuda, faz prova, comprova que tem o mínimo exigido pelo cargo. Para ser médico, engenheiro ou advogado, anos de formação e aprovação em órgãos regulatórios.

Para ser deputado federal e ter nas mãos o voto sobre o orçamento do país, a segurança pública e o futuro de gerações inteiras? Basta ter um título de eleitor e convencer um partido a te aceitar.

A Constituição permite isso. Mas a ausência de filtro institucional só se torna um problema real quando existe gente disposta a explorar essa brecha sem nenhum senso de responsabilidade. O sistema não obriga ninguém a ser despreparado. O que ele faz é não impedir. E há uma diferença enorme entre as duas coisas.

Ninguém impediu Manoel Gomes de estudar política antes de se declarar candidato. Ninguém impediu que ele chegasse à entrevista com pelo menos uma proposta concreta. Ninguém impediu que ele soubesse, minimamente, o que é o cargo que está disputando. A omissão foi dele.

O partido que lucra com o fantoche

Seria incompleto parar aqui e só olhar para o candidato. Porque quem o convidou foi o partido. O Avante o procurou. Chamou. Quis. Isso não é acidente. Isso é estratégia deliberada.

Partidos como o Avante não estão atrás de legisladores. Estão atrás de números. Um nome famoso com milhões de seguidores atrai votos. Votos arrastam outros candidatos da legenda para cima pela lógica do quociente eleitoral. E mais cadeiras no Congresso significa mais poder para negociar ministérios, cargos, emendas e favores com qualquer governo que estiver no poder.

Um deputado sem plataforma própria, sem convicções e sem capacidade de raciocínio independente é o candidato ideal para um partido do Centrão. Ele vota como mandam, nunca questiona, nunca contraria o líder da bancada. É fantoche com mandato de quatro anos pago pelo contribuinte.

O Centrão não existe apesar do despreparo dos candidatos que o compõem. O Centrão existe por causa dele. Alimenta esse ciclo conscientemente, com frieza e com total ausência de compromisso com o interesse público.

O eleitor que completa o ciclo

A parte mais incômoda da história é essa. O Tiririca foi eleito. Com mais de um milhão de votos em São Paulo, o maior número da eleição de 2010 para deputado federal. E foi reeleito em 2014. Por mais votos ainda.

Não é coincidência. É um padrão. Figuras públicas com notoriedade conquistada por razões alheias à política conseguem se eleger porque uma fatia significativa do eleitorado trata o voto como curtida em post. Não avalia proposta. Não exige resposta. Não cobra nada.

Esse comportamento não está concentrado numa classe social. Está espalhado por todas elas. E as consequências não ficam só na cabeça de quem votou mal. Caem sobre todo mundo, inclusive sobre quem não votou no candidato.

O voto jogado fora em nome de um meme não desaparece. Ele se transforma em quatro anos de poder entregue a quem vai usá-lo para servir ao partido que o colocou lá.

Tudo está errado, e precisa ser dito assim

O problema não é só o sistema. O problema é o candidato que não tem consciência do que está pedindo. O problema é o partido que lucra com esse despreparo. O problema é o eleitor que não cobra nada.

São três falhas simultâneas que se alimentam. E enquanto forem tratadas separadamente, enquanto cada um apontar o dedo só para o lado de fora, o ciclo continua. Legislaturas se sucedem com figuras que não sabem o que fazem, partidos sem nenhum compromisso com o país e eleitores que acordam de quatro em quatro anos perguntando como chegamos até aqui.

Chegamos porque deixamos. E vamos continuar chegando enquanto não exigirmos mais de cada um dos três.

Você concorda que o problema começa na consciência de quem se candidata, não só no sistema? Comente aqui.

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