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Uma igreja fechou uma de suas unidades às pressas dias depois que o pastor dela, cunhado de Daniel Vorcaro, foi preso. Um banco criado dentro dessa mesma igreja, o tal "banco do Reino", teve o CNPJ suspenso pela Receita Federal e sumiu da internet. E a comissão do Congresso que deveria abrir tudo isso é presidida por um senador que despejou milhões em emendas numa fundação ligada a essa exata igreja, e que se recusa a pautar as quebras de sigilo. Se você juntar essas três frases, já entendeu por que o caso da Igreja Batista da Lagoinha dentro do escândalo do Banco Master é o retrato mais honesto do Brasil real em 2026.

Não é história de esquerda contra direita. É história de sistema.

O que está documentado

Comecemos pelo que ninguém precisa acreditar no canal, porque está em documento oficial e em reportagem de veículo grande.

Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, está preso preventivamente desde o fim de 2025, em apurações que o Banco Central tratou como crise de liquidez grave e que o ministro da Fazenda chegou a descrever como a maior fraude bancária da história recente do país, com rombo na casa das dezenas de bilhões. O canal acompanha esse caso desde a edição de estreia e a régua aqui não muda. Vorcaro é investigado e está preso, não é condenado, e não vai receber desse canal o rótulo que só uma sentença pode dar.

O ponto novo, e o motivo deste dossiê, é a ponte entre o banqueiro e a Lagoinha. Essa ponte tem nome. Fabiano Zettel é cunhado de Vorcaro, casado com a irmã dele, Natália, e foi pastor da unidade Belvedere da Lagoinha, em Belo Horizonte. Zettel foi preso na Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, em março de 2026. Segundo extratos bancários obtidos pela Folha de S. Paulo, ele recebeu centenas de milhões de uma empresa que os investigadores apontam como canal de pagamentos do esquema, e transferiu mais de R$ 40 milhões para a própria Lagoinha Belvedere, em repasses que chegaram a R$ 8 milhões por mês entre o fim de 2024 e o começo de 2025. Esses números saíram dos extratos, não da boca de um adversário político.

A relação Vorcaro e Lagoinha, aliás, é bem anterior ao escândalo. O próprio banqueiro foi apresentador de um programa na Rede Super, a emissora de TV ligada à igreja, antes de entrar no mercado financeiro. Em 2023, a festa de 15 anos da filha de Vorcaro virou símbolo dessa proximidade, com show de Alok, dupla internacional e uma valsa dançada com o filho mais velho do líder da igreja. O pastor André Valadão confirmou publicamente que Vorcaro foi membro da Lagoinha por muitos anos e voltou a frequentar a igreja, embora negue qualquer envolvimento institucional com os negócios do banco.

O banco do Reino

Aqui o caso deixa de ser sobre um cunhado problemático e passa a tocar a estrutura da igreja.

Em março de 2024, André Valadão lançou a Clava Forte Bank, uma fintech apresentada como banco voltado a igrejas, pastores e fiéis, com slogan de fortalecer o Reino e propaganda de destravar o propósito financeiro espiritual. O detalhe que importa é jurídico. A Clava Forte operava sem autorização do Banco Central para funcionar como instituição financeira, usava sistema fechado por convites e tinha a sede no mesmo prédio da Lagoinha em Belo Horizonte, com Valadão como presidente e a esposa dele na diretoria. A Receita Federal suspendeu o CNPJ da empresa em janeiro de 2026. Relatórios de inteligência financeira do COAF enviados à CPMI do INSS apontaram que a fintech recebeu recursos sob suspeita de origem no desvio de benefícios de aposentados, e documentos da comissão chegaram a descrever a Clava Forte como possível estrutura financeira paralela. Depois das operações da PF, o site e as redes do banco saíram do ar.

Repare na engenharia do negócio. Misturar dízimo de fiel com operação financeira sem registro no Banco Central já seria grave por si só. Fazer isso dentro de um ecossistema que tem laço familiar direto com o homem no centro da maior fraude bancária recente do país é a definição de risco que nenhum órgão de controle deveria deixar passar. Valadão nega tudo, classificou as denúncias como mentiras, gravou um vídeo pedindo perdão às "ovelhas" por ter confiado em pessoas erradas, e afirma que fechou a unidade Belvedere e afastou os envolvidos assim que soube dos fatos. Ele não foi indiciado no relatório final da CPMI do INSS, mas teve o nome encaminhado pela comissão para ser investigado pela Polícia Federal. Investigação não é culpa. Mas encaminhamento à PF também não é absolvição, é começo.

A parte que ninguém dos dois lados quer olhar

Agora vem o nó que define o tom deste canal.

Quem mais empurra essas denúncias no Congresso é o deputado Rogério Correia, do PT de Minas. Ele acusa abertamente a existência de uma triangulação em que o dinheiro sairia do Master, passaria por Zettel, chegaria à Clava Forte e à Lagoinha e seguiria para empresas usadas em lavagem. São palavras dele, acusação de parlamentar, não conclusão de inquérito. O próprio Correia admite que precisa comprovar e que depende de quebras de sigilo que não saem do papel. Tratamos isso como acusação, com nome e sobrenome de quem acusa, e não como fato consumado.

Só que a esquerda que levanta a bandeira da Lagoinha é a mesma que ocupa essa CPMI do INSS e, segundo parlamentares até da base governista, gastou energia desproporcional perseguindo o filho de Lula enquanto outros nós ficavam frouxos. Régua é régua. Quem usa a comissão como palanque de campanha contra o adversário, e seletivamente, não pode reclamar quando a comissão também é usada como palanque pelo outro lado.

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E o outro lado é o mais interessante. Quem preside a CPMI do INSS é o senador Carlos Viana, de Minas, hoje no Podemos, figura típica do Centrão. Reportagem do Metrópoles mostrou que Viana destinou cerca de R$ 3,6 milhões em emendas parlamentares a uma fundação ligada à Lagoinha. O mesmo Viana se recusa a pautar os requerimentos de quebra de sigilo da Clava Forte Bank e de Valadão. Traduzindo, o homem que controla a agenda da investigação tem dinheiro público próprio carimbado na porta da igreja investigada, e usa esse controle para segurar exatamente os pedidos que mirariam a igreja. O ministro Flávio Dino, do STF, deu prazo para Viana explicar o destino dessas emendas. Enquanto isso, todos os pedidos para ouvir representantes da Lagoinha na comissão foram rejeitados, ao mesmo tempo em que igrejas menores, com movimentações infinitamente menores, tiveram sigilos quebrados e dirigentes convocados.

Some a isso a fotografia que já circulou, de André Valadão e do deputado Nikolas Ferreira dentro de um avião de Daniel Vorcaro. Nikolas não é réu, não é investigado por crime nesse caso, e a proximidade não prova nada criminal. Mas é fato registrado, e o eleitor de 18 a 35 anos tem o direito de saber quem voa com quem antes de decidir o voto em outubro.

A posição do canal

Vamos ser diretos, porque é para isso que este canal existe.

O escândalo da Lagoinha dentro do caso Master não é um troféu da esquerda nem uma perseguição religiosa inventada. É o sistema operando no automático, com todos os atores fazendo o papel de sempre. O PT transforma a denúncia em arma eleitoral contra o bolsonarismo e, ao mesmo tempo, administra uma CPMI enviesada. O Centrão, na figura de quem preside a comissão, blinda a igreja com a mão que distribui emenda e trava a investigação com a mão que controla a pauta. O bolsonarismo, que fez da pauta dos costumes e da fé o seu cimento eleitoral, aparece colado a um ecossistema religioso que abriu um banco sem licença e que tem parentesco direto com o maior caso de fraude bancária recente. E, no meio disso tudo, duas vítimas reais. O aposentado que teve desconto indevido no benefício, gente vulnerável que o esquema do INSS sangrou na casa dos bilhões. E o fiel de boa-fé, que entregou o dízimo achando que estava fortalecendo o Reino e não financiando uma fintech clandestina.

A indignação aqui não tem partido. Tem endereço. O endereço é a impunidade montada em camadas, em que cada poder protege o seu pedaço e ninguém responde de verdade.

A proposta do bom senso, e da pauta que o canal defende, é simples de enunciar e difícil de executar porque incomoda todo mundo. Investigar com a mesma régua, sem perseguição seletiva e sem blindagem seletiva. Quebrar os sigilos onde a lei permite, independentemente de a igreja ser de direita ou de a denúncia partir da esquerda. Acabar com o uso de emenda parlamentar como moeda de proteção e tirar de quem tem conflito de interesse evidente o comando de uma comissão que mira gente próxima. Fechar a brecha que permite que um "banco" opere coletando recursos sem autorização do Banco Central, escondido atrás de linguagem espiritual. Corrupção e lavagem não se tornam menos graves porque passam por um púlpito, e fé verdadeira não tem medo de auditoria.

A paciência com a fé sincera do brasileiro é infinita. Com quem usa essa fé como fachada de planilha, tem limite.

Você concorda?

Você acha que a CPMI vai mesmo investigar a Lagoinha até o fim, ou que o caso vai ser engavetado igual a tantos outros quando o nó aperta no lado certo? Comente aqui embaixo.

Fontes

Este dossiê foi montado a partir de material público e de reportagem de veículos da lista de prioridade do canal. Extratos e valores de transferências atribuídos a Fabiano Zettel foram divulgados pela Folha de S. Paulo. A suspensão do CNPJ da Clava Forte Bank consta na Receita Federal, e os apontamentos sobre recebimento de recursos sob suspeita constam de relatórios do COAF enviados à CPMI do INSS, com cobertura de Correio Braziliense, Metrópoles e Brasil 247. As emendas do senador Carlos Viana à fundação ligada à Lagoinha e a ordem do ministro Flávio Dino para que ele preste esclarecimentos foram noticiadas pelo Metrópoles. O encaminhamento do nome de André Valadão à Polícia Federal consta do desfecho do trabalho da CPMI do INSS.

Nenhuma pessoa citada foi tratada como condenada. Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel estão presos em processos em curso. André Valadão nega qualquer envolvimento e teve o nome encaminhado para investigação, não para indiciamento. As acusações de triangulação financeira são atribuídas ao deputado Rogério Correia, que admite depender de quebras de sigilo ainda não autorizadas. Nikolas Ferreira aparece neste texto apenas por proximidade documentada, sem imputação de crime. Onde havia acusação, dissemos de quem partiu. Onde havia apuração, dissemos que é apuração. Onde havia documento, mostramos o documento.

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