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Resumo: o centrão não é um partido, não é uma ideologia e não é um acidente. É um método. Em 2025, congressistas capturaram mais de 50 bilhões de reais do orçamento federal e comandam 63% das prefeituras brasileiras. Nem Lula nem Bolsonaro quebraram esse esquema. Os dois se ajoelharam a ele. Este artigo explica, sem academicismo, o que é o centrão, como ele nasceu, quem faz parte e por que ele é o verdadeiro governo do Brasil.

O gatilho

Em dezembro de 2025, o governo Lula liberou 2,37 bilhões de reais em emendas parlamentares em apenas doze dias. Só na semana do Natal foram 1,5 bilhão. A coincidência? O Congresso aprovou, no mesmo período, pautas de interesse do Planalto. A CPMI do INSS rejeitou a convocação de Lulinha, filho do presidente. A sabatina de Jorge Messias para o STF foi adiada para dar tempo de o indicado de Lula "conquistar apoio dos congressistas".

Isso tem nome. É chamado de democracia representativa nos livros didáticos. Na prática brasileira, chama-se extorsão institucional. E o nome de quem extorque é centrão.

Enquanto o brasileiro comum aperta o cinto com inflação, juros de cartão de crédito acima de 400% ao ano e serviço público sucateado, 61 bilhões de reais foram reservados para emendas parlamentares no orçamento de 2026. Isso sim é o verdadeiro "orçamento secreto" travestido de nova roupagem. E quem controla essa verba é o grupo que nunca saiu do poder, independentemente de quem ganha eleição presidencial.

O contexto: o que é o centrão de verdade

A origem: 1987, Constituinte, reação ao avanço progressista

O centrão nasceu em 1987, durante a Assembleia Nacional Constituinte. Um grupo suprapartidário foi formado para dar apoio ao governo Sarney e reagir a uma redação constitucional considerada "consideravelmente mais à esquerda" que a média dos parlamentares eleitos em 1986.

Naquele momento, o grupo tinha uma função clara: travar pautas progressistas como a reforma agrária e garantir interesses do Planalto de Sarney em troca de apoio político. Era um centrão com algum propósito ideológico, por mais pragmático que fosse. Reunia figuras de PMDB, PFL, PTB, PDS e partidos menores, sob o rótulo de "Centro Democrático".

Esse centrão original morreu rápido. Com a impopularidade de Sarney aumentando, seus líderes correram para se dissociar do governo. E foi aí que o centrão assumiu sua forma final: não como uma corrente ideológica, mas como um método de sobrevivência política.

O que é o centrão hoje: o método, não a ideologia

O centrão contemporâneo é definido por uma única regra: proximidade com o poder, independentemente de quem esteja no poder.

Não tem programa de governo. Não tem visão de país. Não tem nem sequer coerência mínima entre uma legislatura e outra. Tem apenas capilaridade municipal, controle de cargos e apetite por emendas.

Na prática, o centrão funciona assim: apoia quem está no Planalto em troca de ministérios, verbas e cargos em estatais. Quando o governo enfraquece, recua. Quando um novo governo assume, filia-se ao novo governo. Foi bolsonarista entre 2019 e 2022. É lulista desde 2023. Será flaviozista, tarcisista ou qualquer outro "ista" em 2027, dependendo de quem vencer.

A jornalista política já apelidou o fenômeno de "direitona" ou "arenão", em alusão à Arena da ditadura. Essa segunda comparação é cruel, mas precisa: assim como a Arena era o partido de sustentação automática do regime militar, o centrão é o partido de sustentação automática de qualquer governo eleito. Muda o presidente, muda a bandeira, muda o discurso. O centrão continua lá.

Os partidos que compõem o centrão em 2026

Os cinco partidos tradicionalmente identificados como o núcleo do centrão em 2026 são:

PP (Progressistas). Partido de Arthur Lira, ex-presidente da Câmara e figura-símbolo do centrão na última década. Comandou a Codevasf, órgão-chave do "orçamento secreto". Detém o Ministério do Esporte no governo Lula. Em 2026, formou federação com o União Brasil, criando a maior bancada do Congresso.

União Brasil. Partido de Davi Alcolumbre, atual presidente do Senado (reeleito com 73 dos 81 votos em fevereiro de 2025). Herdeiro do DEM e do antigo PSL. Tem três ministérios no governo Lula, apesar de ter anunciado "rompimento" em 2024. A incoerência é o funcionamento normal do centrão.

PSD. Partido de Gilberto Kassab, que elegeu o maior número de prefeitos do país em 2024. Ocupa três ministérios no governo Lula. Rodrigo Pacheco, que comandou o Senado entre 2021 e 2024, é filiado e agora migra para o PSB.

MDB. O avô do centrão. Sigla que já apoiou militares, tucanos, petistas, bolsonaristas e agora lulistas. Administra o maior número de habitantes entre todas as legendas. Tem três ministérios no governo Lula.

Republicanos. Partido de Hugo Motta, atual presidente da Câmara, eleito em fevereiro de 2025 com 444 votos de 513. Ligado à Universal e a setores evangélicos, mas opera com a mesma lógica fisiológica do resto do centrão. Ciro Nogueira, do PP, e Eduardo Cunha, ex-deputado cassado, são citados como mentores políticos de Motta.

Juntos, esses cinco partidos controlam 63% das prefeituras brasileiras. Isso representa 3.466 municípios. Um poder territorial maior do que o de qualquer presidente da República.

Como o centrão captura o orçamento

Aqui está o coração do problema. Em 2015, as emendas parlamentares representavam 2,5% do orçamento discricionário do Executivo. Em 2025, representaram 21,9%. O percentual é inédito. E a tendência é de expansão: o orçamento de 2026 prevê mais de 61 bilhões de reais em emendas.

Três tipos de emendas drenam o dinheiro público:

Emendas individuais, em que cada deputado ou senador tem um valor fixo para direcionar a projetos de sua escolha. São impositivas desde 2015, ou seja, o governo é obrigado a pagar. Somam 26,6 bilhões de reais em 2026.

Emendas de bancada, decididas coletivamente por deputados do mesmo estado. Impositivas desde 2019. Somam 11,2 bilhões em 2026.

Emendas de comissão, definidas por colegiados temáticos como saúde e educação. Não são impositivas, mas cresceram absurdamente após o STF declarar inconstitucional o "orçamento secreto" e as emendas de relator. Dificultam identificar os "padrinhos" da verba, justamente por serem coletivas. Somam 12,1 bilhões em 2026.

Resultado: em 2025, o governo federal pagou 31,5 bilhões de reais em emendas, recorde histórico. Outros 15,5 bilhões foram empenhados, mas não pagos. Dos 48,8 bilhões previstos, o Executivo comprometeu 47,07 bilhões. Quase tudo.

Em ministérios como Turismo, 80% da verba discricionária foi sugada por emendas em 2025. O Ministério do Esporte teve 65,2% da verba drenada. Na Saúde, foram mais de 25,7 bilhões empenhados via emendas, recursos que geralmente vão para prefeituras aliadas aos parlamentares que indicaram a verba.

Traduzindo: quando você vai ao posto de saúde e ele está sucateado, saiba que parte do dinheiro que deveria chegar lá foi desviada por uma lógica que favorece os redutos eleitorais dos deputados, não a necessidade sanitária da população.

O centrão como governo sombra

Em fevereiro de 2025, o centrão consolidou sua hegemonia. Hugo Motta foi eleito presidente da Câmara. Davi Alcolumbre, presidente do Senado. Ambos tiveram o apoio simultâneo do PT de Lula e do PL de Bolsonaro. Ambos são centrão. Ambos são a prova de que a polarização é teatro para o eleitor, enquanto o centrão é a realidade do poder.

A frase do presidente Lula em dezembro de 2025 é emblemática. Disse que o Congresso "sequestra 50% do Orçamento" e classificou o modelo de emendas impositivas como "erro histórico". No mesmo período, seu próprio governo acelerou pagamentos de emendas para garantir aprovação de pautas como a LDO e adiar a sabatina de Messias. A hipocrisia é óbvia. Lula critica o centrão nas entrevistas e governa com o centrão nas votações.

O mesmo centrão que hoje sustenta Lula vestiu, literalmente, a camisa de Bolsonaro em 2022, como disse o próprio Arthur Lira. Não há arrependimento, não há conversão, não há lado. Há apenas interesse.

A posição: o centrão é o câncer do brasil e os dois lados fingem que não é

Quando chamamos o centrão de "câncer do Brasil" não é figura de linguagem. É diagnóstico.

Um câncer é uma proliferação desordenada de células que usam os recursos do organismo para se multiplicar, às custas do corpo inteiro. O centrão faz exatamente isso com o Estado brasileiro. Prolifera em ministérios e estatais. Consome verba pública sem entregar política pública. Impede a renovação e a reforma. E, como todo câncer, se beneficia de diagnósticos tardios e tratamentos paliativos.

Quer uma prova? Compare o orçamento da Saúde executado por emendas (25,7 bilhões em 2025) com a qualidade do SUS. Compare os 30 milhões de emendas direcionados ao Carnaval da Bahia via Ministério do Turismo com a situação dos hospitais da Bahia. Compare os gastos do Ministério do Esporte via emendas com o estado do esporte amador no Brasil.

O dinheiro sai. Mas chega onde dá voto para o padrinho da verba. Não onde o cidadão precisa.

E aqui está a parte que petistas e bolsonaristas não querem admitir:

O PT governa com o centrão. O PL, de Bolsonaro, governou com o centrão. Arthur Lira foi peça-chave tanto do governo Bolsonaro quanto do governo Lula. Davi Alcolumbre presidiu o Senado nos dois primeiros anos de Bolsonaro e voltou a presidir no governo Lula. Os mesmos caras. As mesmas prerrogativas. Os mesmos esquemas.

Quem acha que Bolsonaro ia reformar o sistema precisa explicar por que ele entregou a Câmara e o Senado ao centrão por quatro anos. Quem acha que Lula vai reformar precisa explicar por que, em três anos, o volume de emendas bateu recorde atrás de recorde sob sua gestão.

A conclusão é desconfortável, mas precisa ser dita. A polarização entre petismo e bolsonarismo serve ao centrão. Enquanto o eleitor comum briga no WhatsApp sobre Lula e Bolsonaro, o centrão divide 61 bilhões de reais por ano. Enquanto as famílias se desentendem na mesa do domingo sobre pautas de costumes, Arthur Lira e Davi Alcolumbre decidem quem sabatina no STF e quem preside a CPMI.

O petismo e o bolsonarismo, no fim das contas, são o combustível emocional que mantém o centrão no poder. Cada vez que a discussão pública se reduz a Lula versus Bolsonaro, a discussão real sobre o centrão é adiada. Esse é o maior truque da política brasileira dos últimos quinze anos.

E aí entra a pergunta que ninguém quer fazer: se o problema continua o mesmo independentemente de quem ganha a eleição presidencial, talvez o problema não seja o presidente. Talvez o problema seja quem escolhe, de fato, o que o governo vai aprovar, quais cargos serão ocupados e para onde vai o dinheiro público.

Esse alguém não mora no Palácio do Planalto. Mora no Congresso. E atende pelo nome de centrão.

A proposta: como romper com o centrão de verdade

Romper com o centrão não é apenas questão de votar em um candidato não-centrão para presidente. Bolsonaro foi eleito em 2018 com esse discurso e terminou o mandato comendo na mão de Arthur Lira. A ingenuidade não é aliada de quem quer reforma real.

Romper com o centrão exige uma agenda concreta:

Eleger uma bancada alternativa no Congresso. Não adianta presidente reformista com Câmara e Senado dominados pelo fisiologismo. É no Legislativo que o centrão vive. É no Legislativo que ele precisa ser derrotado. As eleições de 2026 elegem dois terços do Senado. É a maior chance de começar a mudar a composição política do país em décadas.

Reformar o sistema de emendas. As emendas impositivas foram um erro histórico, como o próprio Lula admite quando lhe convém. É preciso restabelecer o controle constitucional da execução orçamentária pelo Executivo. Transparência total sobre quem indica cada emenda. Rastreabilidade do dinheiro até o destino final. Limites objetivos por parlamentar.

Aplicar cláusula de desempenho real. A cláusula atual é fraca. Apenas 13 dos 29 partidos registrados no TSE a cumprem. A partir de 2026, será exigido 2,5% dos votos válidos em pelo menos um terço dos estados. Ainda é pouco. O Brasil precisa de menos partidos, com identidade ideológica clara, para eleitores saberem o que estão votando. O Partido Missão defende essa direção de reforma política institucional.

Priorizar as sete propostas do Livro Amarelo do Partido Missão:

  1. Combate à corrupção e fim de privilégios do funcionalismo público

  2. Desfavelização com reurbanização, educação e emprego

  3. Fusão de municípios deficitários que drenam recursos federais

  4. Guerra ao crime organizado como inimigo público do Estado

  5. Industrialização do Nordeste para reduzir dependência de verba federal

  6. Responsabilidade fiscal e respeito ao arcabouço

  7. Sustentabilidade com combate ao desmatamento

Essas propostas não são simpáticas ao centrão, precisamente porque atacam a lógica fisiológica que alimenta o centrão. Fusão de municípios significa menos prefeituras para negociar. Combate à corrupção significa menos impunidade. Responsabilidade fiscal significa menos emendas. É por isso que o centrão não vai apoiar essa agenda. E é por isso mesmo que ela precisa ser pauta central em 2026.

Exigir coerência de quem pede seu voto. Qualquer candidato que, em 2026, prometa combater o centrão enquanto negocia apoio do centrão, está mentindo. É simples. O teste de integridade é perguntar: com quem esse candidato pretende governar? Se a resposta inclui os partidos listados acima, a promessa de reforma é conversa para boi dormir.

A chamada

O centrão não é o destino do Brasil. É uma escolha coletiva de décadas de conformismo, de polarização estéril e de voto emocional. Cada eleição em que o brasileiro vota "contra alguém" em vez de votar "por algo" fortalece o centrão. Cada ano em que o debate público se resume a Lula versus Bolsonaro dá mais dois anos de sobrevida ao fisiologismo.

Existe um ponto em que a paciência tem limite. E esse ponto é agora.

Você acha que o Brasil aguenta mais um mandato presidencial gerenciado por Hugo Motta, Davi Alcolumbre e pelos mesmos partidos que sustentaram Dilma, Temer, Bolsonaro e Lula? Comente aqui embaixo. Marque aquele amigo que ainda acha que o problema do Brasil se resolve apenas trocando de presidente. Compartilha com quem precisa entender por que nada muda, independentemente de quem ganha.

Em 2026, você vota para presidente. Mas, antes disso, vota para deputado federal, deputado estadual e dois senadores. É nessa votação que o centrão nasce, morre ou se renova. Não desperdice seu voto.

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